segunda-feira, 13 de outubro de 2014

metade


Oswaldo Montenegro


 Que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio;



Que a música que ouço ao longe seja linda, ainda que em tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada, mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade;



Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,      apenas respeitadas, como a
única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo;



Que essa minha vontade de ir embora se transforme
na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão;


Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,   a outra metade eu não sei;


Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito;
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo,   mas a outra metade é cansaço;



Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer;
Porque metade de mim é platéia e a outra metade é canção;




E  QUE A MINHA 'LOUCURA' SEJA PERDOADA

PORQUE METADE DE MIM É AMOR E A OUTRA METADE
 TAMBÉM.




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